19 de mar de 2010

Canto para minha morte - ATA I

Eu já morri. Não tem nada aqui. Esse lance de anjos, demônios, asa-deltas e chocolate, não existe por aqui. Aqui a gente só tem tempo para pensar. A vida pós-morte é como o Poupa-tempo da Sé, onde nós, mortos, somos os funcionários públicos. Se você nunca foi lá, deixa eu descrever para você: um grande salão, cheio de pessoas fazendo absolutamente nada. Um alto ali tira uma sujeira do olho, a menina ri com a colega do nome da menina que acabou de sair dali querendo renovar o RG. Era Cleópatra da Silva, ela diz, entre risadas. E o nome dela, meus amigos, é Meridiana. O pai dela gostava de Geografia.

Mas não vamos falar de morte, esse assunto chato. Deixa eu contar um pouco da minha vida para vocês. Eu começaria a história com Once Upon a Time, mas não tem um príncipe (quiçá um anfíbio) ou mesmo uma madrasta. Não tinha inimigos, a bem da verdade nem amigos eu tive. Não que eu não fosse querida, sabe. Vamos colocar dessa maneira: se eu fosse a menina de vestido vermelho de A Lista de Shindler, o filme passaria num planeta onde todas as pessoas seriam vermelhas e eu passaria despercebida. Entendeu agora?

Essa era eu. Eu era bonita, sabe. Hoje, assim, de longe, eu consigo me enxergar bem. Eu era bem bonita. A pele clara, os olhos pretos, bem pretos, e o cabelo escorrido. Não fui castigada na puberdade com as espinhas, não passei pelo que a maioria dos adolescentes passaram. Eu não era feliz, também, mas isso ninguém sabia. Era um segredo que eu guardava só para mim. E eu guardava tão bem que ás vezes eu mesmo esquecia, e nesses momentos, nesses pequenos momentos, eu era feliz de verdade. Eu até ria.

Você deve estar se perguntando porque eu era triste, né. Acho que isso é algo que eu ainda não descobri, talvez seja por isso que eu esteja aqui, enfiada nessa lacuna infinita sem bebida, comida ou mesmo televisão a cabo, por Deus, eu daria qualquer coisa para ler Caras nesse momento: aquelas notícias inúteis sobre pessoas que você nunca vai conhecer e nunca quis saber sobre a vida delas, mas alguém fingiu que isso era interessante e o resto do mundo acreditou, sabe? As pessoas sabem mesmo ser esquisitas.

E o meu cabelo era bem colorido. Eu trocava de cores como quem troca de opinião a respeito de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Lembro até hoje a primeira vez que o vi, empolgada somente pela Kate Winslet. Jim Carrey é como uma lata de leite condensado que você come todos os dias durante 3 meses e depois nunca mais quer provar. Cansa, sabe. Pintar o meu cabelo não cansava, não. Eu gostava. Não era daquelas mulheres que pintavam porque estavam numa fase nova da vida, ou porque a minha casa de Saturno estava passeando pela de Marte e encontrou um cabelo branco por li e eu sou sagitariana e sagitarianos não foram feitos para pintar o cabelo.

Mas eu não estava nem aí. Eu ia no cabelereiro e apenas balançava a cabeça, porque ele era famoso e qualquer coisa que ele dissesse eu assentia sem pestanejar. Deve ser mais ou menos isso que as pessoas fazem quando não tem opinião, né? Aliás, gosto de como as pessoas confundem cores de cabelo com personalidade. "Nossa, cada mês você tá com uma cor diferente, quanta personalidade você tem". É engraçado porque eu queria responder "não é personalidade, sua idiota, é apenas meus cabelos brancos crescendo e eu preciso me desfazer deles", mas era mais engraçado ainda fingir que acreditava nisso. Eu não tinha opinião, mas as pessoas não precisavam saber disso, certo?

E a primeira vez que eu morri foi numa Quarta-feira no meio da semana enquanto eu fazia faxina em casa. Foi engraçado, porque eu juntava os livros para guardar numa estante quando encontrei o meu livro-step. Livro-step foi o nome que eu dei para um livro que eu acreditava que teria qualquer resposta para os problemas da minha vida. Quando algo dava errado eu simplesmente abria e lia algum parágrafo dele, de forma que nunca o li inteiro. Eu gostava dessa superstição e gostava do fato de poder me sentir mais leve e protegida por um pequeno objeto que se escondia no meu armário, como se ele fosse um tesouro perdido, desses que a gente vê na sessão da Tarde da Globo um grupo de fake-piratas tentando encontrar através de um mapa com um X imbecil num lado qualquer.

Então eu abri porque meu coração não aguentava de tanta pressão. Eu estava doente de tristeza, eu estava vazia. E o trecho que apareceu foi o seguinte: "Aquele que pode, faz. Aquele que não pode, ensina." George Bernard Shaw. Então eu vesti minha melhor roupa e fui caminhar no sol. E liguei meu Ipod e o shuffle decidiu Regina Spekptor. It was so easy E assim que eu li eu soube. and the words so sweet. Eu não era professora. E eu não podia nada. You spend half of your life trying to fall behind. Então eu esperei o sinal ficar vermelho e o ônibus acelerar You'resing your headphones to drown out your mind e me joguei na frente dele. E essa foi a primeira vez que eu morri.

You can't remember; you try to move your feet.

3 comentários:

M disse...

a gente diz que é perfeito quando se identifica.
perfeito.

Débora Melo disse...

Adorei a definição de livro-step haha acho que todos tem um. Regina Spektor é sensacional.

Janaíne Paiva disse...

eu to meio chocada