26 de mar de 2010

O que você vai ser quando crescer

(esse provavelmente vai ser o post mais pessoal de todos que eu já fiz até hoje)

Ao reencontrar um garoto que eu não falava há anos (por anos entenda 8 anos), trocamos aquelas famosas frases "como você anda/onde está morando e o que anda fazendo". Fomos amigos de infância. Daqueles que você troca confidências e sonhos e segredinhos obscuros. Então eu respondi para ele e veio o choque. "Oi? Como assim ADMINISTRAÇÃO, eu imaginei que você fosse fazer jornalismo, artes cênicas, já tava esperando você na Globo, nas peças de teatro, não di...(...)" e eu dei aquela resposta educada que a gente costuma dar ou quando tá com pressa ou quando não fala do assunto
- Ah, eram coisas de criança, sabe como é, né, você queria ser fotógrafo, eu lembro bem. Como éramos bobos, não é mesmo. Eai o que você tá fazendo?
- Fotografia
A verdade é que qualquer pessoa que me conheceu até os meus 16 anos de idade teria certeza de que eu seguiria artes cênicas. Eu tinha certeza que eu faria artes cênicas. Eu já tinha decidido tudo mas então eu comecei a fazer teatro profissional e eu conheci um pouco dos bastidores. O que ganhávamos em peças mal dava para comprar uma água no intervalo. Tínhamos que economizar e o camarim era um quadrado do tamanho banheiro da minha casa e tinha que caber sei lá 8 pessoas. Ok, era no interior. Mas já dava para conhecer um pouco, sabe.
O teatro ainda é uma parada não muito valorizada aqui. E eu soube enxergar isso cedo, e mudar de idéia rápido antes que eu me machucasse ou me iludisse em ganhar a vida com isso. NÃO QUE SEJA IMPOSSÍVEL, mas é uma luta que eu descobri na época do vestibular que eu não estava diposta a ir em frente. Lembro exatamente do dia em que eu decidi que não seguiria com esse meu sonho. Depois de muito pesquisar, pensar e discutir eu pensei "po, eu não preciso parar o teatro para ganhar dinheiro, posso continuar atuando sem me preocupar com despesas uma vez que garantiria a vida com algum outro emprego qualquer". É a junção ideal.
Não odeio administração, pelo contrário. Me encontrei num curso que tem tudo a ver comigo e me abre possibilidades para diversas áreas em diferentes empresas. Mesmo com pouca experiência, tive oportunidade de trabalhar e conhecer boas empresas e ser valorizada em todos os cargos que ocupei. Eu, que sempre tive medo de não dar conta, de repente me vi exercendo funções que foram ficando fáceis ao longo do tempo.
Mas eu continuava vazia.
Mesmo tendo feito o pacto, passei 3~4 anos sem ir atrás de nenhum dos dois e em algum momento em que não me lembro bem, eu me perdi. O ócio ajudava, né. Estava desempregada e não encontrava estágio em lugar nenhum. E eu não sabia como sair dessa situação. Muitas vezes eu ia dormir angustiada, com impressão de algo inacabado, e me afastei das pessoas, da minha família, namorado, colegas, de tudo. Eu fiquei sozinha, eu quis estar sozinha e eu nunca estive tão sozinha. E eu mergulhei num estado de depressão tão profunda que eu não me importava com mais nada, eu apenas contava os dias como quem conta o nº de feijão antes de preparar um almoço daqueles (eu não saberia dizer porque eu não cozinho, mas, né).
E de repente aconteceu. Assim como não sei precisar o exato momento em que perdi a fé não sei precisar o momento em que ela voltou. Talvez daqui um tempo eu entenda melhor mas agora ainda está embassado para mim. Arranjei um estágio, comecei a estudar Francês, voltei a escrever, voltei para a academia, me empolguei na faculdade e de repente tudo pareceu simples demais. Como se o tempo todo a resposta estivesse ali na minha frente mas eu estava cega demais para perceber.
E de repente, sentada numa livraria, folheando alguns livros de teatro, eu entendi. Não era uma coisa de criança. Drummond disse uma vez "Meu verso é minha consolação. Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua cachaça" e não poderia concordar mais. Eu tenho um dom. E nada me destrói mais do que não segui-lo. Eu estava certa aos 18 anos. Eu não precisava seguir carreira com teatro ou jornalismo. Mas eu errei em ignorar esses dois durantes esses anos como se fosse um capricho de criança, uma coisa qualquer.
E de repente tudo fez sentido. Comprei um livro de Bernard Shaw e, folheando, me permiti sentir todos aqueles sentimentos perdidos que me faltavam há anos. Senti saudade, ri, me encontrei.

Eu só tenho 23 anos.

E não existe absolutamente nada que eu não possa fazer.

10 comentários:

Liz disse...

Tudo é possível para aquele que acredita! Existem coisas que sempre tive vontade de fazer mas nao tive coragem... Agora que estou longe de casa, certas coisas ficaram mais fáceis de serem feitas pois poucos me conhecem e já que estou aqui, WTF!

Caminhante disse...

Lindo!

Jack disse...

Você tem 23 anos e não há nada que você não possa fazer - mas não me faça jornalismo, pelamor. Ou eu vou te xingar pra cacete.


Além do mais, você já É jornalista. Todos somos. As árvores somos nozes. Diploma pra quê?

Mente Desgarrada disse...

Dont tell me what i cant do - Jhon Locke.

Porra , TEXTO FODA!
Seriao Nina, pow, emocionou aqui!

AP disse...

Até que enfim, porra.

Gleds disse...

Eu vou ler amanhã.
Mas você não pode fazer duas coisas:
1. Ser Rei
2. Ser modelo de pênis.

Ja está no N97 pra eu ler.

=)

Gleds disse...

É, acabei lendo antes e, puta que pariu.

Ótimo texto e... Seja feliz!

trufasefrutas disse...

"Todo mundo tem sua cachaça"
ele não poderia estar mais correto.


E todos temos nossa mamadeira, na minha opinião. Algo que desde criança sonhamos. Se vamos realizar, ou obscurecer, ou nos esconder de nossos proprios desejos... só nós saberemos. O problema é que nessas horas que vc vê que possui muitos "EUs" ... um deles escondendo sua criança na terra, e um deles tentando empurrá-la para o mundo lá fora.

Di va gay. =*

trufasefrutas disse...

bom saber que voce gosta....








DE MIM :D risos

tia_lulu disse...

TIRANDO O FATO DE EU SER ABSOLUTAMENTE PASSIONAL COM MEUS AMORES....
NINOTICA VC REALMENTE É MARAVILHOSA
TE AMO MUITO E TE ADMIRO DEMAIS.
VC É BRILHANTE