24 de jun de 2010

A borboleta que morreu porque sabia voar

O casulo (ou crisálida) é um invólucro constituido por um material parecido com a seda construido por lagartas e algumas larvas de insectos.

Larva, inseto, cresce, se sufoca. Cria asas. Fica preso, escondido, do mundo. Fica lutando contra si mesmo, contra a vontade de se matar e a vontade de crescer. Nada explora. Pode ser que tenha mais um dia , pode ser que não. Pode ser que nada aconteça. E pode ser que aquele seja o último dia antes que ele voe. A espera é longa. Ele gosta do casulo. Lá é um lugar que ele passou os últimos 11 meses e tava tudo ok. Dentro do que podia estar. Era um lugar seguro. Não tinham os bichos lá fora e nem os problemas que perturbam e o fazem passar noites em claro sem dormir. Era seguro. Era depressivo também, é verdade. Mas era seguro. Ali ele não feria ninguém a não ser ele mesmo. E quanto a isso não tinha problema porque ele já estava tempo demais acostumado a fazer isso. Toc, toc. Nunca ouvira aquele barulho antes. Fazia alguns anos que não ouvia um barulho daquela altura, um barulho que lembrava um tempo que ele não viveu, mas que sabia que poderia existir em algum lugar, porque havia lido em algum lugar sobre isso. Esse barulho tinha o som necessário para fazê-lo querer sair dali e ouvir. Ele desejou por uma semana inteira e fez força suficiente para sair.Quebrou. E se assustou com o que tinha lá fora. Era claro demais e seus olhos arderam. Ele tentou abrir as asas mas uma delas estava quebrada. Ele não sabia naquele momento, mas ele jamais teria sobrevivido não fosse aquele barulho. A asa quebrada era porque ele tinha desistido de lutar, de viver. Ele não tinha mais forças e sua asa estava quebrada. Mas o barulho tinha som, tinha nome, e tinha corpo. E esse barulho o alimentou por uma semana até que lhe fosse permitido voar.
Voar era a coisa mais bonita que ele já havia visto. Ele podia visitar todos os lugares ao mesmo tempo sem pertencer a nenhum, porque isso era liberdade. Nada que ele havia lido ou que haviam dito a ele era liberdade. Apenas estar em todos os lugares, quase como se fosse onipresente, quase como se fosse várias pessoas ao mesmo tempo. Quase se fosse feliz. Mas ele não sabia que ao voar, aquele barulho tinha dado uma asa e tinha ficado machucado. Ele não sabia naquela hora. Ele soube depois. E o barulho não conseguia mais voar e de repente tudo pareceu não fazer mais sentido. Como continuar voando se não poderiam voar juntos? Como continuar feliz se o barulho não estava. Aquele barulho maldito precisava voar também. E você sentia raiva. E você sentia todos os sentimentos do mundo. Porque ter o melhor e o pior dia no mesmo mês não é para qualquer um , não. E você sabia que precisava fazer uma escolha. E você sabia que você já tinha vivenciado coisas demais. Aquilo não era para você, são para as pessoas que sabiam lidar. Você só tinha uma opção: voltar para o casulo. Voltar para aquilo que é fácil, que você conhece bem e que não precisa lidar com ninguém porque a única pessoa que você magoa é aquela que merece ser magoada.

Dai é só esperar o casulo te sufocar e você morrer lentamente...

4 comentários:

☼ Liz® ♫ disse...

Texto certo na hora certa!

Phil disse...

Muito bom, muito bom!

Meu tudo e/ou nada disse...

ela mora num casulo...
depois achava tudo tão lindo...
mas, é assim...

oi, pequena.

elias.alberto disse...

Puta merda. Não sei como você flui tão bem entre os estilos. Te amo.