17 de dez de 2007

Vergonha Alheia

Seis e meia da tarde. Trânsito filha da puta . Busco um caminho alternativo enquanto desvio de um moleque idiota pedindo esmola no meio da rua. O sinal fica vermelho bem na minha vez, mas meto o pé no acelerador e finjo que não vi. Um monte de trouxa buzina pra mim, mas eles ficaram pra trás. Já passa das seis e quarenta e eu continuo andando em alta velocidade, estou atrasada. Não dou espaço pra velhinha atravessar a rua porque não tenho tempo pra ficar esperando gente lerda. Merda, quase bati em um motoboy que acabou de passar por aqui... isso me fez lembrar daquele retardado que levou meu retrovisor esses dias atrás, quando eu tava voltando do supermercado. Maldito Carrefour.
Muita gente, muito calor, uma fila enorme. Sorte que encontrei uma amiga e ai passei as compras junto com as compras dela. Chega no estacionamento, puxo minha sacola de compras e ela faz uma cara como quem quer ajuda pra guardar as coisas no carro dela. Dou uma desculpa qualquer e saio fora, tenho cara de empregada agora? O celular toca, é meu colega de serviço, deixo tocando. Sai mais cedo hoje porque tinha compromisso, aposto que ele quer alguma ajuda, mas eu é que não vou ajudar. Ele não tem capacidade de fazer nada sozinho, tomara que a empresa contrate um cara melhor. Sete e cinco, em cima da hora. Abro o portão da garagem e estaciono o carro na minha vaga. O elevador demora pra descer, então subo ás escadas, correndo, afobada. Abro a porta de casa e as visitas já estão na mesa.

- Desculpe, querida, mas achei que você não fosse chegar na hora...

- Não tem problema – sorrio, e cumprimento um por um.

Beijo meu marido com amor, e agradeço por ter cozinhado aquela refeição que parece tão deliciosa. Durante o jantar meu filho insiste em não tocar a comida. Peço pra que ele prove e ele nega várias vezes. Irritada, pressiono mais e ele me mostra o dedo do meio, horrorizando as visitas.

- Vai direto pro quarto, AGORA – grito pra ele. Depois abro um sorriso, um pouco envergonhado, e me desculpo – Não sei onde é que foi que esse menino aprendeu a ser tão mal educado.

5 comentários:

Schwartz disse...

Também sofro disso; como se não bastassem as minhas próprias vergonhas.

http://recantodasletras.uol.com.br/autor_textos.php?id=31157&categoria=&lista=lidos

Mano disse...

"Quanta baboseira para um final tão épico". Minha vó, ao ler esse texto em 1941. Beijosmeliga

Carlos Eduardo disse...

Ah, nada que a psicologia infantil do Pica-pau (a.k.a. escova de cabelo para bater no garoto) não resolva.

Mas que trânsito pesado... não tem direito nem a uma trilha sonora, que chato. E eu acho o Extra mais problemático que o Carrefour.

(e eu que não quero ficar na frente quando a multa por avançar sinal vermelho chegar)

Beijos, Má! =]

Neto Macedo disse...

Eu sempre fui um menino dócil e educado.









Tá bom. Mentira. Eu era o oposto.

Fraan ♥ disse...

Ótimo texto. E quanto à essas crianças de hoje em dia, tsc tsc, não tenho nada a declarar.. ^^